sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A "DITA" E OS ANOS DE CHUMBO.

Até agora há pouco, eu estava preparando um outro post sobre Beauty Patterns e suas mazelas, quando hoje, me deparei com um tema (ou será que esse tema que esbarrou em mim!?) super pertinente e em emergência: A DITADURA. Esse post pode até ser o primeiro, mas com certeza, não será o último sobre os anos de chumbo.

Retratos da Ditadura Militar.
Malditos foram aqueles anos de chumbo. Estagnou e marcou toda uma geração de brasileiros e brasileiras. As torturas, os massacres, as agressões (físicas e psicológicas), os homicídios, a violência sexual, a censura, os desaparecimentos, perseguições e espionagem, fora uma série de outras condutas escrotas e nojentas que marcaram as duas "décadas perdidas" sob o controle dos milicos. Estudantes e trabalhadores, jovens ou velhos, homens e mulheres, artistas e músicos, políticos e militantes, operários e patrões, civis ou militares. TODO MUNDO foi, de alguma maneira, afetado pela DITA. Todos os avanços e conquistas anteriores foram direto pro ralo, ou como muitos outros, "desapareceram", foram trancafiados, censurados, exilados e suprimidos da existência. 

O documentário exibido não foi esse, mas "Cidadão Boilesen" é do caralho!

Hoje, eu tive o prazer de assistir a um documentário e participar de um "debate" organizado pela Comissão da Anistia  acerca dessas experiências monstruosas. No entanto, constatei - com muita tristeza e indignação - uma falta geral de interesse e um total descaso quanto ao que ali era apresentado. Eu fico muito puto ao ver com meus próprios olhos, dentro do maior centro universitário particular de Brasília, um auditório (com capacidade para 200 pessoas) lotado com cerca de apenas uma dúzia de figuras ali reunidas (contando com os palestrantes, professores e organizadores!). Me causa uma indignação profunda perceber que as pessoas estão pouco se fodendo (ou já se esqueceram, ou não ligam muito) para uma coisa que ainda é tão atual e tão presente no nosso dia-a-dia. Me deixa muito triste perceber que, dentro de um curso superior de História, apenas alguns gatos pingados se interessavam pelo assunto e pelo debate ali proposto. É de encher os olhos de lágrimas (de tristeza) perceber que futuros historiadores e historiadoras da capital federal simplesmente preferem ir pro bar, ou fazer qualquer outra coisa, do que se propor a refletir por um minuto e questionar esse período da nossa história. Veja bem, não estou criticando, muito menos crucificando ou julgando aqueles que saíram na metade do documentário ou que nem se deram ao trabalho de ir conferir sobre o que aquele encontro se tratava. Não estou acusando nem condenando ninguém. Só não me entra na cabeça esse desinteresse e o corpo-mole, inclusive, por parte de alguns professores que ali estavam reunidos na mesa de debate. Nunca vou entender a omissão que eu presenciei hoje.
Primeiramente, eu não conheço ninguém que tenha sido torturado, não tenho nenhum parente que tenha sido preso pelo governo ou coisa parecida. Muito pelo contrário, meu avô materno já era oficial da Polícia Militar quando Castelo Branco tomou posse. Pouco depois ele veio morar na Nova Capital transferido de BH. Ele nunca me falou muito sobre o que acontecia ou deixava de acontecer durante aquela época. No entanto, nunca me esqueci de uma das primeiras vezes em que eu o questionei sobre a Ditadura e me lembro claramente dele dizendo que era um período em que não havia criminalidade, bandidagem ou vagabundagem nas ruas (o que é totalmente deturpado e, no mínimo distorcido, pra não dizer pior). Mas veja bem, vale a pena lembrar que eu ainda era muito jovem e imaturo quando questionei meu avô e resalto que ele nunca gostou muito de conversar sobre esse assunto.    

Repressão militar.
Mas com certeza absoluta, sem medo de errar, reconheço que nunca vou entender o que é ter sido parte e ter exercido um papel (ou vários papéis) durante todo aquele processo. Só quem viveu aquilo sabe do que se trata a DITA. Só quem sentiu na pele as cacetadas, os pontapés e os choques elétricos sabe do que se trata. Só quem sentiu seu corpo ser violado e estuprado pelos torturadores entende o quanto a cicatriz (não só corporal) dói. Só quem sentiu a dor de ter um filho ou familiar alienado do convívio sabe dos traumas que esses anos proporcionaram. Só quem foi obrigado a se exilar do país, desprovido de qualquer documento de identificação, sabe o que é ser apátrida. Só quem torturou, agrediu, violentou e matou compreende a bestialidade humana e as monstruosidades das quais somos capazes, e somente eles carregarão sobre si a eterna mancha da vergonha e do desprezo. Eles personificaram e materializaram os horrores da Ditadura Militar no Brasil. 
Vítimas da Ditadura.
E se nós (especialmente nós historiadores) nos omitirmos e fingirmos que aquilo não foi nada ou foi algo de menor importância; se nós cidadãos brasileiros nos esquecermos ou fecharmos os olhos pra isso; e se nós civis ou militares, deixarmos isso quieto a fim de não criar "revanchismos" como afirmam alguns; nós estaremos negando o direito de memória daqueles que sofreram mais do que ninguém as escrotidões produzidas pela Ditadura; se nós não dermos a devida importância a esse assunto, estaremos compactuando, contribuindo e perpetuando o silêncio e o esquecimento daqueles que lutaram por um país melhor (e esquecimento é o que muitos querem produzir na gente).  
Lembrando o que a minha saudosa Profª Dr. Joelma Rodrigues mencionou durante o debate - fazendo um link com o Holocausto - em Auschwitz, os prisioneiros fizeram um pacto entre si, prometeram um ao outro que, se algum deles sobrevivesse, nunca se esqueceria do que aqueles homens tiveram que passar e faria com que todo mundo se lembrasse da monstruosidade que eles ali vivenciaram. E eu acho isso muito pertinente ao nosso tema. Quando tratamos da Ditadura é parecido, nós não podemos NUNCA nos esquecer ou pormenorizar esse período, e devemos SEMPRE nos lembrar, debater, questionar e refletir sobre o que foi essa experiência totalitária aqui.

Lembrar para nunca esquecer.
Uma das inúmeras facetas do historiador é exercer essa função de guardião da memória, daquele que resgata figuras e acontecimentos do esquecimento eterno. Um dos vários papéis que assumimos como historiador é de encarnar aquele, que tem como dever, salvar os mortos da danação eterna. E a salvação aqui vem por meio da memória e dos relatos que extraímos desses que passaram dessa para melhor. Só é possível salvá-los do esquecimento, nos lembrando constantemente deles. 
E há quem venha falar de uma "dívida/reparação histórica". Eu, particularmente, acho esse lance de dívida meio complicado e problemático. O reparo, no entanto - ainda que lentamente - já está em progresso. Ainda que a Comissão de Anistia já seja um grande passo na direção certa, pedir desculpas "oficiais" e anistiar alguém não é o suficiente. O próprio conceito de anistia deve ser revisto e repensado para tanto. Ainda há muito o que ser feito para, de fato, cicatrizarmos as feridas causadas pelos anos de chumbo. Ainda temos que lavar muito esses ferimentos para que eles possam se fechar por completo. A re-significação dessas histórias é muito importante para a construção de uma nova história nacional que, contemple e demonstre coerentemente a participação desses grupos e camadas da população que, até então, haviam sido ofuscados e/ou excluídos da história oficial. Assim como já há algum tempo tem sido revisto o papel do negro e da mulher na nossa história, temos que rever o papel dos torturados e dos torturadores na ditadura. Uma pequena, mas simbólica atitude (que se não me engano já vem acontecendo em algumas cidades pelo Brasil) é a substituição do nome de algumas ruas, avenidas e bairros. Essas que, anteriormente, haviam sido batizadas com os nomes de generais, coronéis e afins, estão sendo renomeadas homenageando aqueles que resistiram e lutaram contra a repressão, militantes, desaparecidos e mártires que se sacrificaram em nome da liberdade e da democracia. -Aqui em Brasília, foi lindo de ver a Ponte Costa e Silva sendo renomeada para "Ponte Honestino Guimarães", apesar de que infelizmente nunca aderiu-se ao novo nome. 

Renomeação da antiga Ponte Costa e Silva em Brasília - DF. 
Conversando muito rapidamente com um amigo meu, Matheus Andrade, sobre essas questões no que diz respeito à DITA, cheguei a algumas opiniões pessoais. Veja bem, é a MINHA OPINIÃO PESSOAL. Como eu disse, essa onda de reparo e dívida que o Estado e Sociedade têm para com aqueles que se sacrificaram é meio complicada; ainda há um longo caminho a se percorrer se quisermos reparar (o que ainda dá para reparar) os vários danos sofridos. Se é para pensarmos em algo próximo de uma reparação ou de uma dívida, um pedido de desculpas é o mínimo do mínimo do mínimo! Eu acredito também que uma mera punição legal/administrativa/militar no âmbito do judiciário seja insuficiente. Os sobreviventes não querem vingança ou revanche. Não se trata de criminalizar e punir os algozes, aliás, a punição aqui é até desnecessária. Se trata sim, de reconhecer o papel que cada indivíduo exerceu durante aquele período, ligando os atores a seus palcos de atuação e a outros atores; reconhecendo a dinâmica e a complexidade de todos os fatores envolvidos dentro dessa conjuntura. Eu imagino na minha cabeça uma espécie de Nuremberg Simbólica saca... Um julgamento público em que TODAS AS FIGURAS se sentariam no banco dos réus e seriam julgadas individualmente por suas ações. E podem me taxar do que quiserem porque eu incluiria nesse banco não só os militares, mas todos os jovens militantes, clandestinos e guerrilheiros que atuaram de forma incisiva e violenta contra uma repressão mais violenta ainda. Como eu disse, seria um JULGAMENTO SIMBÓLICO, não haveriam penas ou punições, haveria sim o reconhecimento e a exposição diante da Justiça e do povo, de todos aqueles que participaram de alguma maneira na Ditadura. Me parece muito mais interessante e importante reconhecer, atribuindo a cada figura um papel específico dentro daquele contexto, e trazer ao conhecimento público o que cada um fez, do que sentenciar sexagenários. Tudo bem que crimes lesa-humanidade são imprescritíveis e tudo mais, no entanto, esses senhores de fato não seriam encarcerados.   
Tribunal de Nuremberg.
Trazer à tona para todo o Brasil ver, tanto aquele que matou, sequestrou e roubou em nome da liberdade, da democracia e da justiça, como também expor aquele que matou, torturou, estuprou, violentou e agrediu em nome das Forças Armadas Brasileiras (e em nome de Deus, da Família e da pátria). As condutas aqui são até parecidas: homicídios, raptos, agressões e ataques armados. O que muda são as motivações e as ideologias que estão por trás, e isso é o que devemos diferenciar e separar.
E dentro da lógica desse meu tribunal imaginário, deveriam ter uma parcela significativamente maior de responsabilidade e culpa, primeiramente aqueles oficiais da mais alta patente das FAs; as chefias das agências mais escrotas como o tal do DOPS ou a CENIMAR; os agentes da inteligência brasileira e norte-americana; e principalmente, aquele seleto grupo de empresários e representantes das grandes corporações que estavam por trás do Estado financiando os militares. Pra mim, somente através do reconhecimento e desses links há serem feitos entre indivíduos, locais e episódios, é que estaríamos começando a engatinhar rumo a um diálogo sobre algo próximo de um(a) "reparo/dívida histórica" durante a DITA.

Eu há alguns anos levando uma cacetada na manifestação contra o aumento salarial dos parlamentares. 
O impacto e os prejuízos produzidos pelos anos de chumbo são tão claros e presentes em nossas vidas hoje em dia que, basta lançar nossos olhares sobre instituições como a Polícia Militar para percebermos as extensões do problema. Temos observado claramente durante as últimas manifestações Brasil afora a truculência e a violência indiscriminada com que a PM age para "preservar a ordem pública" e "dispersar os manifestantes". Resquícios óbvios da experiência e dos moldes deixados para trás pela ditadura militar. Se durante aquelas duas décadas tivemos um dos maiores símbolos da obscuridade lançada pelos milicos, que foi a censura; observamos hoje, uma mídia mentirosa, tendenciosa e distorcida (não que a grande mídia não fosse assim entre 1960-70) ao retratar as várias manifestações públicas como atos de vandalismo e classificando os manifestantes como vândalos. Me lembra muito a ditadura, quando a Globo, Veja & Cia. taxavam como terroristas os que se opunham ao regime militar. Me lembro que no documentário de hoje (me foge o nome agora), havia uma cena em que um senhorzinho já com seus cabelos e barba brancos, vestindo um chapéu preto, bem simplesinho, daqueles que sempre viveram no interior relatava quando os homens do exército chegaram e os encaminharam para averiguação sob a alegação de que eles eram suspeitos de terrorismo. O senhorzinho olhava para a câmera e dizia algo tipo: "A gente nem sabia que que era terrorismo ou o que fazia um terrorista". O panorama hoje mudou um pouco, se naquele tempo as pessoas eram presas e violentadas por suspeita de serem terroristas, nos dias atuais, filmar por meio de tablets e celulares servidores públicos do Estado "atuando para conter manifestações" já é o suficiente pra levar uns sopapos e spray de pimenta na cara. Ainda é possível identificar na nossa sociedade, inúmeros aspectos que ainda são reflexos de uma conduta política ditatorial.
No documentário, uma das principais razões que os sobreviventes das torturas apontavam para virem a falar em público sobre suas experiências era "para que a História nunca mais voltasse a se repetir". Todos nós sabemos que não é bem assim, a História nunca se repete e nunca servirá de base de aprendizagem para um futuro vindouro e previsível. No entanto, nesse caso, a História não se repete, mas ela rima bastante. E são essas rimas sinistras que não devem jamais ocorrer. 

"Ajude a proteger sua vida e a de seus familiares. Avise à polícia."
Tratei neste curto post sobre a importância e a emergência de estarmos constantemente refletindo acerca da ditadura militar no Brasil e a re-significando. Dos avanços e conquistas (políticos, culturais, sociais e etc) perdidos em função das décadas de chumbo. Tratei do porquê de se rememorar, e do resgate dos mortos e desaparecidos. Opinei sobre o "reparação/dívida histórica" que o Estado deve para com aqueles que sofreram na pele a tortura e as mazelas da DITA. E também pontuei brevemente alguns dos inúmeros resquícios deixados pela nossa experiência ditatorial. Outro aspecto interessante desse post é a inexistência de referencial bibliográfico. Nesse caso, a bibliografia e as fontes aqui somos nós mesmos, nossos pais, tios, avós e conhecidos. Nossas referências são os relatos biográficos, documentários, a Comissão da Anistia, a Comissão da Verdade e os monumentos simbólicos da - ainda presente - Ditadura Militar. Ainda há muito o que se dizer sobre o Golpe de 64 e tudo que isso acarretou (e continua acarretando). Espero ter conseguido explicitar e colocar pra fora, de forma coerente, alguns dos incômodos que eu venho sentindo. Ainda tem MUITA COISA me incomodando, logo, ainda tem MUITA COISA a ser rabiscada por aqui...

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Iniciando os trabalhos

Por quê? Why? Pourquoi?

Antes de tudo, brota a pergunta elementar: POR QUÊ? Questionamentos e indagações do tipo: "Por que você fez esse blog?"; "Por que você quer postar essas coisas?"; "Por que isso interessa?"; "Por quê, cara!?". Perguntas que não partem exclusivamente dos outros, mas que também eu mesmo venho me colocando.
E bom, mais à frente tentarei respondê-las, mas adianto desde já que, a maioria das respostas para essas perguntas se originam de uma raiz comum: EU!
Para iniciar esse post de apresentação, nada mais esperado do que falarmos de mim, do que eu espero com esse blog, e essas outras coisas típicas de uma apresentação.
 -Rapaz de vinte-e-poucos anos, namorando a menina mais linda da Terra, graduando do curso de licenciatura/bacharelado em História no Centro Universitário de Brasília - UniCEUB, apartidário, músico (guitarrista), espiritualizado, fumante e apreciador dos raros prazeres da vida! Haha! 
Aqui me identifico pelo meu apelido mais difundido: KISS; P. L. "KISS" Gracie, folks! Alguns me conhecem, alguns me odeiam, uns tantos são colegas, e alguns outros poucos são bons amigos. A vida é assim mesmo... 
Quando eu pensei na criação desse blog, eu tinha em mente primeiramente uma coisa: exteriorizar - e de certa forma, materializar - por meio dos posts, algumas reflexões, pensamentos e ideias que me passam pela cabeça. Além de exercitar a pesquisa, o levantamento bibliográfico, leitura, a construção de narrativas e outros aspectos próprios de um "fazer acadêmico", também vislumbro a beleza de uma licença poética, de um exercício criativo (conceitos que discutirei em outro momento em problemáticas relacionadas a narrativa, ciência, arte, etc). 
Buscando assim um gênero híbrido, um filho-bastardo da Ciência e da Arte, oriundo de uma relação safada entre o rigor e os procedimentos de uma pesquisa científica com essa libertinagem literária, poética e até um tanto quanto tosca e escrota. Aparece então esse tipo de texto-reflexivo-narrativo-poético-científico-pessoal-artístico-cultural, meio indefinido, e que nem eu sei mais o que é e deixa de ser...
Além das conveniências e facilidades propiciadas por um blog; hoje, nesse mundo "pós-moderno" que passa por uma segunda globalização, o coletivo se torna cada vez mais íntimo da Internet. E dentro dessa teia que é a World Wide Web, blogs como este são apenas um pontinho miudinho, dentre várias outras coisas, que formam infinitas redes de compartilhamento de dados e arquivos entre computadores conectados mundo afora. O que eu quero dizer é que a Internet sendo essa ferramenta foda que ela é, e partindo da minha crença pessoal de que conhecimento, informação, cultura, arte - e algumas outras coisas que aqui não vêm ao caso - deveriam ser livres de imposição de valores financeiros, de fácil acesso para homens e mulheres de todo o globo terrestre; que, com este desajeitado blog, farei algumas singelas, tímidas e humildes contribuições para uma universalização do conhecimento, informação, cultura, arte, etc
Veja bem, jamais que de forma alguma eu aspiro ser algum tipo de filósofo, escritor, pensador, intelectual PICA GROSSA DA GALÁXIA, ou algum hipster, indie, (pseudo)cult com síndrome de superioridade intelectual. Os meus motivos já foram expostos acima. 
Esse blog, antes de mais nada, é algo que parte de mim para eu mesmo, from me to myself! E se o blog, em algum momento, tem qualquer intenção de alcançar outras pessoas se não eu mesmo, que seja a fim de contribuir para a construção de um mundo onde o conhecimento, informação, arte e cultura são de graça, de fácil acesso e estão disponibilizados para cada homem e mulher mundo afora.

Clio tesão! 

Clio posando de tchutchuca by Pierre Mignard.
Ahhh Clio! Dentre as nove musas de Homero e Plutarco, Clio - ou Kleio, Κλειώ - consegue ser a mais instigante e mais atraente! Até mesmo mais do que Euterpe "a doadora de prazeres", musa da música.
Assim como suas oito irmãs, filhas de Zeus com Mnemósine (uma das Titânides, filha de Urano e Gaia, deusa da memória), as musas repousam junto a Apolo no Monte Parnaso que se erguia sobre a antiga cidade de Delfos. Cultuada por historiadores desde a Antiguidade Clássica de Heródoto e Tucídides, Clio é a musa inspiradora da história e da criatividade. Representada geralmente como uma linda jovem com uma coroa de louros, levando consigo numa mão a trombeta e, noutra o livro de Tucídides ou um pergaminho. Clio é tida como a proclamadora, aquela que divulga. E o que é a História se não a proclamação e divulgação do passado?
Eu, na posição de historiador, não poderia ser mais cliché e démodé ao eleger Clio como inspiração para o título desse blog. E de fato, eu não sou o único haha. Cito como exemplo rápido uma renomada revista científica fundada em 1994 nos U.S. sob o título "Clio's Psyche" (Psique de Clio), o que é bem pertinente já que as obras publicadas por essa revista são da área da "Psychohistory" (não sei se há uma tradução, mas a grosso modo, se trata do campo da História que se alia à Psicanálise). Para toda essa inquietação que toma conta de mim, que consumiu noites em claro à base de nicotina e leituras fritantes, pra essa estupefação que eu sinto ao ler e pesquisar, se há uma personificação para tudo isso, TEM QUE SER CLIO!

"De vez em quando, ela desce à cidade dos homens espalhando seu enlevo inebriante sobre os simples mortais."
Mas é claro, o caminho que nos espera é tortuoso...
Em um (excelente) blog, esse com um título mais original, "Café História": http://cafehistoria.ning.com/, encontrei essa pequena passagem que por sua vez foi retirada da Introdução de um (ótimo) livro de José Gerardo, Samara Mendes Araújo Silva, Raimundo Nonato Lima dos Santos (orgs) e mais uma pá de gente, "Labirintos de Clio - Práticas de Pesquisa em História":
"Como prêmio, a serena musa, filha dileta de Zeus e Mnemósine, agracia seus visitantes/discípulos com o título de historiadores e, com o estilete da escrita, fixa em narrativa os seus nomes no panteão da História. Como se não bastasse, esses jovens historiadores passam também a ser vocatizados através do fruto de seus conhecimentos gerados durante a travessia pelo labirinto, fato esse que recebe notoriedade através da trombeta da fama de Clio."
Esta passagem por sua vez, é a despeito de uma analogia feita pelos autores entre os labirintos de Clio e a prática da pesquisa historiográfica. Diz respeito ao prêmio reservado para aqueles que completassem a tortuosa jornada escalando o monte, desbravando labirintos, até o templo da nossa deusa grega. E aparentemente, essa "premiação" é uma das coisas mais almejadas pelos gregos antigos: a imortalização de seus nomes através do tempo graças aos seus "grandes feitos", sendo eles assim, salvos de um dos grandes medos daqueles homens: o esquecimento eterno. 
E o que eu quero é me jogar nessa viagem, caminhar esse longo caminho através das intempéries e dificuldades, atravessando os confusos labirintos da pesquisa, rumo ao tempo de Clio, para quem sabe, quiçá um dia, ser premiado e agraciado assim como foram os grandes do panteão da História.

Clio e seus relacionamentos

Durante o século XX, assistimos boquiabertos a História se aproximar de outros campos do conhecimento como a Sociologia e a Psicanálise, apenas para citar alguns. Observamos perplexos a apropriação e o flerte com teorias de outras áreas do saber, como filosofia linguística ou antropologia cultural. Clio tem se relacionado muito além do que podemos dar conta. Tem sido quase que uma suruba dentro das Humanidades. Sacanagens à parte e graças aos grandes como Foucault, Le Goff, Chartier, para citar apenas os primeiros que me vieram em mente, a História que tem sido produzido e pensada desde 1929 com os Annales é uma História cada vez mais rica, plural, multifacetada, policromática, diversificada, em constante re-significação e contemplando uma gama IMENSA de possibilidades e objetos a serem analisados. Veja bem, isso não quer dizer que tudo que se tem pensado e produzido antes dos Annales seja uma bosta, inútil, pobre e etc (apesar de que todas aquelas merdas, inúteis e pobres que o Eduardo Bueno escreveu foram lançadas a partir de 98). Mas nunca que, de forma alguma, eu estou desmerecendo ou negligenciando Marx e Engels, ou Voltaire, ou até mesmo Varnhagen. O que eu chamo atenção, e faço questão de frisar é que, a partir de 1929 - com os Annales - até os dias de hoje, a História tem enfervecido de contribuições muito fodas de uma galera mais foda ainda.
E é partindo e, tomando como marco essa transformação historiográfica desencadeada por Bloch, Febvre & cia. que, dou início aos trabalhos e declaro pra quem quiser saber que há 5 semestres estou em um relacionamento complicado com Clio (e suas outras paqueras)...
Por agora isso é tudo! That's all folks!
Comentários, sugestões, críticas, xingamentos, todos e tudo são muito bem vindos para este micro-universo que estou criando para me ludibriar e dar algumas [refletidas] rapidinhas com Clio...

Fiquem ligados:


  • BURKE, Peter - A Escola dos Annales 1929-1989 - A revolução francesa da historiografia.
  • BURKE, Peter - Variedades da História Cultural.
  • DOSSE, François - "O historiador: um mestre da verdade" In A História. 
  • GERARDO, José; ARAÚJO SILVA, Samara Mendes; DOS SANTOS, Raimundo Nonato Lima (orgs) - Labirintos de Clio - Práticas de Pesquisa em História.