terça-feira, 3 de setembro de 2013

Amar ou eternizar-se em suas obrigações?

Uma breve reflexão do porque muitos romanos tiveram Enéias como herói.

Ao longo de sua interminável viagem rumo à terra prometida, a lenda de Enéias nos mostra como o filho da Deusa Vênus e de Anquises, teve de sacrificar a ternura de seu coração para que pudesse cumprir sua obrigação com os Deuses sendo finalmente imortalizado perante os olhos dos romanos.

“Após a tempestade que o arremessou com seus navios na costa africana, Enéias pensou que havia encontrado, por fim, o termo de suas provações. Ali um povo novo construía uma cidade. Uma rainha, vinda de Sidon, lançava as bases de um império. Sabedora da epopeia troiana, ela acolheu os náufragos bondosamente, emocionada com suas desgraças e sensível a sua coragem. Ela mesma não havia sido poupada pelo destino. Vira o próprio irmão assassinar seu esposo, a quem amava mais que tudo no mundo. Fugira de seu país para escapar de uma morte mais que provável e agora procurava uma nova pátria os númidas bárbaros. Dido a rainha temerária, estava tão só quanto Enéias na missão que se atribuíra: os dois conduziam um povo e estavam condenados a pior das solidões. Quase não houve necessidade da interferência divina. Bastou uma oportunidade, uma caçada, uma tempestade que separasse Enéias e Dido de seu séquito na montanha, o abrigo cúmplice de uma gruta onde os dois se refugiaram. Nos relâmpagos que a intervalos iluminavam a gruta, Dido chegou julgar ver a chama das tochas do himeneu. Ela se acalentou na ilusão de que os deuses aprovassem aqueles laços que aceitava com felicidade. Enéias deixou-se amar. Não se envergonhava nem temia os envolvimentos que todo o seu ser aceitava. Com total boa fé aceitou seu papel de marido e de rei até o dia em que os Deuses lembraram-lhe que sua missão não era aquela: esperava-o sua “terra prometida”.”

 Seria possível recusar seus sentimentos de amor com sua esposa e seu filho Ascânio em virtude ao cumprimento da vontade dos Deuses e a fortuna que o destino lhe reservara? Sendo Enéias filho da Deusa do amor não deveria permanecer nos braços da mulher amada?

“Arrasado, mas sem hesitar, o filho de Vênus sacrificou ao dever seu amor humano. Partiu. Ao saber de sua decisão, Dido cobriu-o de reprovação. Estava desesperada com aquela fuga diante de seu amor. Ele o sabia, e no entanto a deixou. Enfurecida e envergonhada, pois acreditara que Enéias poderia substituir seu marido Siqueu e porque em seu abandono reconheceu-se perjura, resolveu morrer. No alto do palácio acendeu uma fogueira imensa, que seria sua pira funerária, e a chama iluminou o céu, enquanto os navios de Tróia partiam em direção ao norte.”

Exatamente por renegar a força do seu destino, Enéias foi um lendário herói para os romanos. Tal atitude indaga uma reflexão sobre as virtudes romanas e como esses foram capazes em lidar com um sentimento tão complexo como o amor e a paixão carnal. O herói que Roma se orgulhava, negara a essência de seus sentimentos, preferindo cumprir com o destino que os deuses lhe confiaram do que com as vontades que seu coração despertava. Sendo assim, achou melhor mudar os próprios desejos a alterar a ordem do mundo, pois conhecia os limites do seu próprio poder, sabia que uma paixão, sobretudo satisfeita, não pode aprisionar a vontade de um homem. Por essa atitude os romanos viram no “Herói” Enéias que a força da vontade dos destinos superava o capricho amoroso da vida de um mortal. Essa foi uma das principais lendas imortalizadas por Virgílio e que reflete alguns costumes romanos em relação ao amor e a obrigação. 

Será que Enéias sentiu-se realizado pelos seus feitos? Vale mais renegar uma paixão verdadeira ou buscar a realização material? É cabível uma reflexão sobre a atitude de Dido em tentar "substituir" uma paixão por outra? A vontade dos deuses respeita a vontade dos homens? Essas são algumas perguntas que cabem ao leitor responder.

Nenhum comentário:

Postar um comentário